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1972
 
  O início de 1972 ficou conhecido como "o verão do desbunde", termo originado do verbo desbundar, que, segundo os dicionários, significa "perder o autodomínio, enlouquecer, loucura, desvario". Foi apenas isso? Quem era jovem no Brasil, teria dois bons motivos para desbundar : 1) acompanhar a possibilidade de sonhar com uma nova era, voltada a valores espirituais e pouco materialistas; 2) esquecer a repressão política e o estado sem direito instaurado pela ditadura militar. Aliás, nos anos 70, a América Latina era um antro de ditaduras por todos os lados.

Sonhar com novos rumos fazia parte do pensamento libertário e da estética contracultural da época. A Guerra do Vietnam chegava ao fim, com milhões de vítimas. Richard Nixon era acuado pelo caso Watergate. Os cabelos cresciam, as barbas ficavam compridas, as idéias cada vez mais radicais, as artes plásticas se misturavam a perfomances ou instalações, o sexo virava amor livre e a humanidade até pensava que podia ser feliz.

Nas principais cidades brasileiras, a cena underground se expandia em lojas alternativas, restaurantes macrobióticos, espetáculos sem horário para terminar, grupos adeptos de filosofia oriental, políticas pessoais de liberação do corpo, artesanato com criatividade e, enfim, uma enorme solidariedade pairando no ar.

Caetano Veloso e Gilberto Gil sentiram que a barra estava menos pesada. E decidem retornar de Londres, em volta triunfante. Em seguida, Caetano se apresenta no Teatro João Caetano com o repertório do LP Transa (em que Gal Costa fazia vocais e participação em uma faixa), ao lado de antigos sucessos de Carmen Miranda, O Que é Que a Baiana Tem? e Disseram que Voltei Americanizada. Gil lançava o álbum Expresso 2222, com hit instantâneo: Back In Bahia. Gal também participava desse trabalho, na faixa Sai do Sereno.

Maria Bethânia, por sua vez, permanecia em cartaz com o espetáculo Rosa dos Ventos, considerado o mais carismático de sua carreira tão prolífica em shows. Ela ainda estrearia nesse mesmo ano o filme Quando o Carnaval Chegar, de Cacá Diegues, com Nara Leão e Chico Buarque.

No meio desse quadro de euforia, Gal a Todo Vapor se transforma, na Zona Sul do Rio de Janeiro, em referência obrigatória da juventude desbundada. Assistir o espetáculo (que só chegaria a São Paulo em junho desse ano) era cumprir um ato de fé, com o superlativo do desbunde: pessoas cabeludíssimas, roupas transadíssimas, abraços demoradíssimos, cabeças louquíssimas, sons maneiríssimos, viagens desencucadíssimas.

Gal lançava o compositor Luiz Melodia, autor de Pérola Negra, e confirmava para públicos maiores a tarimba dos Novos Baianos na instigante canção Dê um Rolê, de Moraes Moreira e Luiz Galvão. O espetáculo tinha a direção de Waly Salomão (1945-2003), personagem que manteria ação intensa pelo resto da vida, além de voltar a trabalhar com Gal em vários momentos. Na mesma época, Waly lançava o seu livro de poemas Me Segura que Eu Vou Dar Um Troço, enquanto seu irmão, o também poeta/freak Jorge Salomão, dirigia, quase no teatro ao lado, o mestre Luiz Gonzaga no show Volto Pra Curtir.

O mundo? Quem se importaria com o mundo? Tamanha efervescência no litoral brasileiro fazia com que poucos atentassem para o restante do planeta. A não ser que alguém se dispusesse a viajar de carona até o Nepal, passando por um monastério na Índia, seguindo depois rumo a uma comunidade nas planícies da Turquia. Bons tempos.

No segundo semestre de 1972, Gal e Gil montam um recital despretensioso: Até 73. Os dois passariam uma temporada na Inglaterra e se apresentariam juntos pela Europa.

Por cá, o desbunde prosseguiria. O FIC, Festival Internacional da Canção, transmitido ao vivo do Maracanãzinho, Rio de Janeiro, lançava Raul Seixas, Sérgio Sampaio e Maria Alcina. Gal também foi destaque: de calça Saint-Tropez listrada, bustiê indiano e silhueta magérrima, apresentou-se em show especial na noite finalista. Uau.

Eduardo Logullo
 
 

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