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2001: esse ano traria aura mítica e mística, lembrando de cara o título do filme 2001, uma Odisséia no Espaço, dirigido em 1968 por Stanley Kubrick. Longe se iam aqueles bons tempos de acreditar em futuros cibernéticos, viagens a outras galáxias e túneis do tempo.
A euforia de a humanidade estrear um milênio novo já se arrefecia e, aos poucos, o panorama voltava ao normal. Algo mudou? Só no calendário. Nas economias preponderantes do mapa-múndi, a direita afinava seus saltos altos, a partir do texano George W. Bush entrando em cena para dirigir o país mais poderoso do planeta. País do qual ele nunca havia, até então, colocado os pés para fora. Na Inglaterra, o garoto trabalhista Tony Blair se fingia de defensor dos fracos e oprimidos. Na Espanha e na Itália, dois primeiros-ministros francamente reacionários e conservadores.
No Brasil a era FHC já não brilhava tanto quanto antes e pipocavam nítidos núcleos de apodrecimento político. Não se sabia mais quem era do lado de lá, quem estava acima, quem vinha para o lado de cá, quem descia, quem se remexia. O debaixo desce e o de cima, sobe? Ausência de ideologias, ausência de afinações éticas. 2001, uma Odisséia no Vazio. Amigos iam, aves piam, amigos pairam, bobagens flutuam, amigos ficam. Salve simpatia. Who cares? E por fidelidade a parcerias antigas, Gal Costa decide dar as caras a bater na área política da Bahia. Seu gesto de apoio apenas lhe trouxe aborrecimentos, além da perseguição implacável da mídia que a faria retardar todos os planos artísticos naquele momento.
Na segunda metade desse ano complicado, passada a nuvem negra, Gal lança seu último trabalho na BMG. Um disco elegante, retraído, de intérprete pronta a revisar a própria obra: De Todos Amores. Luzes sobre luzes antigas. Filme, fumo, fumaça. Saudades, felicidades, imagens, em produção de Daniel Filho e Wagner Tiso. A capa e encarte, fotografados por Mario Cravo Neto, com a cantora envolta em lenços de seda que lembravam os parangolés de Hélio Oiticica, já valeriam o disco.
Mas esse foi talvez o CD de lançamento mais traumático na carreira de Gal. A imprensa continuava amarga, rancorosa. Ela engoliu tudo quieta, na dela, olhando o mar. Burro foi quem não gostou. Ataques às vezes produzem retrações, elucubrações e avanços. Será que você não sabia? Nunca saberá? Tudo ali sabia fortemente a poesia, aos dias e às ondas do mar.
Setembro, 11: explodem as duas torres do World Trade Center em Nova York. E o mundo muda, o mundo fica mudo, o mundo se transmuda. Outro mundo. Agora, realmente nada mais será como antes. Vai ter, vai ter que ser faca amolada em todos os sentidos. Leste-oeste, sul-norte. Globalização seria isso?
Morriam Jorge Amado, Mario Covas, Maria Clara Machado e George Harrison. O clima pesado do restante do ano não impulsionaria Gal a montar espetáculos. O músico Herbert Vianna caía de um ultraleve em acidente que quase o leva à morte. Mas, sem trazer sentido cronológico a esse relato impressionista do período, vale citar que nesse ano Gal arrebentou na abertura da novela Porto dos Milagres, em composição de Dory Caymmi incluída no CD De Todos Amores: a tão bonita Caminhos do Mar. Na certa, eles a ressuscitarão.
É o tempo, é a estrada, é o pé e é o chão.
No dia 29 de dezembro subia aos céus Cássia Eller.
2001 de tantos dissabores.
Eduardo Logullo
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