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| 2003 |
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O que foi 2003? No mundo corriam discussões sobre ética, perdas étnicas, avanços ilegais, atropelos de ideologias, embaraços políticos, esquentamento da temperatura global, impaciência, o espetáculo da guerra e perspectivas de um futuro meio azedo.
No Brasil, em contraponto, sobravam esperanças, reformas, revisões de programas, comemorações populares, política participativa em alta e milhares de planos para se abrir os braços e fazer um país. Lula chegava ao poder, revestido por uma aura de apoio jamais vista no país. O planeta inteiro voltava os olhos para cá.
O cinema brasileiro atingia um ciclo de maturidade, com platéias que competiam com os grandes lançamentos. Musicalmente, também foi um ano peculiar: Caetano Veloso cantou na cerimônia do Oscar, surgiu Maria Rita para alegrar os órfãos de Elis Regina, Elza Soares atacou em outro trabalho radicalmente eletrônico, Maria Bethânia gravou um CD semi-experimental (Brasileirinho), Bebel Gilberto subiu de vez ao trono que fora do país pertenceu há décadas a Sérgio Mendes e Gal Costa se apresentou pela décima vez no Carnegie Hall, em Nova York.
Nessa avalanche de euforia, ela preparava um show que marcaria sua carreira, o momento histórico do país e a força da maior música popular do mundo. Porém, duas semanas antes da estréia do espetáculo, que trazia Bia Lessa na direção, surgiram problemas relacionados ao apoio da sua nova gravadora, Indie Records, e decidiu-se pelo adiamento da estréia. O ano findava e restou a Gal apenas cumprir o contrato, gravando o novo CD: Todas as Coisas e Eu.
Esse disco de alcance arrojado -- e que revela momentos de rara grandiosidade -- ainda não foi devidamente assimilado em sua missão recente de fazer rebrilhar relíquias musicais que andavam fora de circulação. Gal reaparece cheia de agudos, avança por arranjos ora acústicos, ora de batida eletrônica, a deslizar seu tapete mágico sobre quase 20 canções que permanecem grudadas na memória da raça.
Quem desconhece Linda Flor, Brigas, Nervos de Aço, Ave Maria no Morro, Kalu, Folhas Secas ou Alguém como Tu?
Afinal, tolo é quem desconhece o poder de Gal Costa.
Eduardo Logullo
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