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1988
 
  Estreado no final de janeiro, o show do disco Lua de Mel como o Diabo Gosta ganhara o nome de Gal Costa em Concerto. As platéias (outra vez?) não entendiam as suas interpretações agressivas, feitas sem concessões, exatamente como aconteceu em 1968/1969. Por acomodação, depois de acostumar-se ao repertório melódico dos discos anteriores, o público preferia pensá-la como cantora linear, não-mutante, acomodada. Gal se sentia cansada, querendo mudanças ainda não detectadas. Cumpriria a temporada, viajaria por mais algumas cidades e optaria por escapulir durante um tempo do circuito de shows, gravadoras e imprensa. Fez participações em discos de outros cantores, alguns recitais no exterior e pronto.

Depois de receber o Prêmio Sharp de Melhor Cantora de 1988, ela continuou atenta aos novos da época, como Cazuza, Lobão ou Lulu Santos. E recebe de Cazuza, Nilo Romero e George Israel a missão de registrar Brasil, um raivoso rock-batucada composto para abertura de Vale Tudo, novela que tentou escancarar os hábitos podres de um país repleto de contradições históricas, econômicas e sociais. A canção, gravada por Gal de modo extremamente incisivo, valia como um manifesto diário.

Acabava-se ali um Brasil ou despontava outro Brasil? As propostas musicais dos anos 80 começavam a se diluir, gerando um marasmo de criação raras vezes observado. As rádios se rendiam de vez à programação comercial, a música sertaneja passava a dominar as prioridades das gravadoras, o mercado se convertia ao dinheiro novo.

Sintomaticamente, em 1988, morreram três artistas que traduziram, cada um de modo intenso, um país de estilo raro: a cantora Linda Batista, que fora onze vezes Rainha do Rádio; a grande dama do samba, Aracy de Almeida; e o comunicador Abelardo Barbosa, o inacreditável Chacrinha. Um trio que fez o Brasil mostrar bem a sua cara.

De meados de 1988 a 1990, Gal Costa sai completamente de cena. Para pensar, pensar e pensar.

Eduardo Logullo
 
 

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