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Depois da meia-noite
Antonio Carlos Miguel - Folha de São Paulo - 03/03/2005 |
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Uma insuspeitada memorialista está quicando na área, mas tão cedo seus textos não devem virar livro. Textos como os que tivemos acesso e que publicamos com exclusividade e aos quais Gal Costa tem dedicado muito de suas madrugadas. "Nunca durmo antes das quatro da manhã, e quando a casa se acalma, depois da meia-noite, fico no computador escrevendo", conta Gal, que, menina, gostava de fazer redações, mas só retomou o hábito nos últimos anos, quando aderiu ao computador e à internet. "Escrevo há algum tempo, sem uma ordem cronológica. São fragmentos da memória que separo por temas. Não sei como será o livro, alguém terá que organizar os textos, mas é cedo, só pretendo editá-lo quando ficar velha (risos) . Antes disso tenho muitos projetos".
Projetos que, provavelmente, renderão muitas outras histórias para o futuro livro. Empolgada com os novos rumos de sua carreira, a cantora, que na semana que vem, entre os dias 28 e 31 de outubro, volta ao Canecão com o show "Todas as coisas e eu", no momento negocia sua transferência para a gravadora Trama e planeja um novo disco.
"Depois de dois meses de conversas, o contrato está pronto, chegamos a um acordo e devo assiná-lo na semana que vem. Já tenho o próximo disco delineado, mas fico com medo de falar, o que posso adiantar é que será com repertório inédito, estou pedindo músicas ás pessoas", diz Gal, que em seu CD anterior, que dá nome ao show atual, reviu clássicos da canção brasileira pró-bossa nova, mas filtrados pela batida do violão e pelo canto de João Gilberto.
A experiência de mergulhar no passado - tanto musicalmente quanto nos textos memorialísticos - parece funcionar como uma auto-análise e pode explicar muito da boa fase da cantora. Mas usar da escrita para superar suas dúvidas e frustrações não é novidade, e sim algo que Gal já experimentara na juventude, antes de sair de Salvador.
"Eu tinha uns 19 anos, estava com Caetano, Dedé e Piti na Rural Willys de um amigo, quando furou o pneu e o carro rolou pela ribanceira", conta. "Como a gente vinha devagar, ninguém se machucou, mas fiquei muito traumatizada com o acidente. Então, outro amigo sugeriu que fizesse algumas sessões de análise, mas como eu ficava completamente travada e não conseguia falar nada, o psicanalista pediu que eu escrevesse. Passei a registrar tudo, inclusive os meus sonhos. Certo dia, Caetano me viu com uns papéis na mão, perguntou o que era, pediu para ler e adorou, disse que escrevia muito bem e que deveria continuar com aquilo".
Gal não seguiu o conselho do amigo - que depois iria se tornar seu principal compositor - mas se o Brasil perdeu naquela época uma escritora promissora, ganhou uma de suas melhores cantoras. Nos trechos de suas memórias ela revela a premonição que teve na adolescência de que seria famosa, e conta que até hoje tem antevisões. Um dom que, no entanto, não costumava falar para ninguém, "porque receio que, se contar, essa espécie de encantamento poderá se partir e impedir a sua realização".
Histórias de suas primeiras experiências profissionais em São Paulo, quando foi apresentada por Chico Buarque a empresários da época; de como deu sua guinada tropicalista, surpreendendo até Caetano; ou da cumplicidade dos Doces Bárbaros, que, juntos, formariam "uma quinta energia"; são lembradas, num estilo que mistura leveza e profundidade. Como na letra da canção "Divino maravilhoso", o que se revela a partir desses textos é uma Gal Costa atenta e forte.
"Está sendo maravilhoso, escrever é um prazer indescrití-vel", garante.
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