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Com cinco décadas de trajetória e prestes a completar 70 anos de idade, Gal Costa não para. A cantora baiana – que já foi estrela da Tropicália, símbolo da contracultura e discípula da bossa nova – acaba de lançar Estratosférica, disco em que empresta sua voz a canções assinadas por jovens compositores

Quando ouviu pela primeira vez aquela pergunta clássica, “Maria da Graça, o que você quer ser quando crescer?”, a menina estava com a resposta na ponta da língua: “Cantora”. Sua vida já era isso. Em casa, pegava as panelas da mãe e colocava na cabeça. Cantava ali dentro, aproveitando a acústica para entender como a própria voz soava. Estava com 14 anos quando um rapaz, baiano como ela, apareceu no rádio cantando diferente. O nome logo decorou, João Gilberto. A música, Chega de Saudade. Um mundo inteiro de possibilidades se abria para a menina naqueles três minutos de audição.

Ela ainda não tinha 20 anos quando conheceu outro baiano que mudaria sua vida. Apesar dos planos de fazer carreira no cinema, Caetano Veloso também gostava de música e tinha lá suas composições. Um dia, perguntou: “Quem é o maior cantor do Brasil?” Assim que recebeu um João Gilberto como resposta, sacou o violão e ensinou a ela uma canção. “Quero ouvir você cantando isso aqui. Fiz pensando nele.” Passaram horas repetindo os versos de Sim, Foi Você, com a suavidade que a escola de João Gilberto ensinara. E a tal música foi lançada pela menina na primeira oportunidade que teve de gravar um disco.

Era 1965. E, nas cinco décadas que nos separam daquele momento, Maria da Graça, já adotando o apelido da meninice – Gal – como nome de guerra, construiu uma carreira sem par no Brasil. Estrela das experimentações da Tropicália nos anos 1960, musa das transgressões contraculturais nos 1970, rainha pop do rádio nos 1980, diva da MPB nos 1990 e 2000. Em 2011, depois de um período fazendo shows fora do País, recomeçou o ciclo com Recanto.
Hoje, à beira de completar 70 anos, Gal Costa vive o momento mais ativo de sua trajetória. Ao mesmo tempo que lança Estratosférica, álbum de canções inéditas em que grava uma série de compositores da nova geração, ela corre o Brasil com dois espetáculos: Ela Disse-me Assim, dedicado à obra do gaúcho Lupicínio Rodrigues, e Espelho d’Água, em que mostra os grandes clássicos que ela mesma imortalizou.

É preciso dizer, desde já, que este jornalista que vos escreve tem envolvimento nos três projetos, na função de diretor artístico. Este é, portanto, o texto de um personagem-narrador. Assim como também são personagens-narradores os demais nomes convidados para a construção desse pequeno perfil de Gal.
“Trabalhar com ela me deu a oportunidade de mergulhar num universo que vivia em minha memória afetiva”, diz Pupillo, da banda Nação Zumbi. Além de ser parceiro de Junio Barreto e Céu na canção que dá nome ao novo trabalho da cantora, ele gravou bateria nas faixas do disco e também tocou no show com repertório de Lupicínio. “Quando ela lançou seu primeiro álbum solo, em 1969, um nova ordem foi estabelecida para a música pop brasileira.”

Composto de canções como Baby, Não Identificado e Que Pena, o disco a que Pupillo se refere é um dos pilares do movimento Tropicalista. Gal vivia então os últimos momentos com os parceiros Caetano e Gil, que logo iriam exilados para Londres. Ela ficou no Brasil, dando voz às canções que eles enviavam ou que ela ia buscar em terras inglesas.
São desse período as primeiras lembranças que Milton Nascimento tem dela. “Eu fazia o show com o grupo Som Imaginário e ela estava envolvida, de frente, segurando a barra. Em toda a minha carreira, depois que a conheci, fiz algum lance com ela. Quando Gal grava uma canção minha, eu me sinto mais que privilegiado”, diz o cantor e compositor, que assina com Criolo a autoria de Dez Anjos, outra faixa de Estratosférica.

Com Caetano e Gil ainda em Londres, ela se aproximou do poeta Waly Salomão, figura que se tornaria fundamental em sua história. Com a direção dele, estreou em 1971 Fa-Tal – Gal a Todo Vapor, um dos espetáculos mais cultuados do showbiz nacional e que se desdobraria em um álbum duplo.
Tecladista e violinista no show Ela Disse-me Assim, o jovem popstar Silva tem o trabalho seguinte da cantora, Índia (1973), em sua lista de álbuns preferidos. “Ele é cheio de experimentalismos. A começar pela capa [que traz Gal do umbigo para baixo, vestindo uma tanga vermelha]. Fico imaginando como deve ter marcado sua época e, visto aos olhos de hoje, só deixa claro como nossa geração ‘encaretou’.” Seria de se imaginar que convencê-la a fazer uma capa tão radical tenha sido difícil. “Difícil para quem? A ideia foi minha – tanto a da capa quanto a dos seios nus na contracapa”, diz Gal. “Eu era hippie. Aquilo tudo foi muito natural.”

O passar do tempo modifica consideravelmente a maneira como o Brasil olha o trabalho da cantora. Bom exemplo disso é Cantar (1974). Pichado pela crítica quando lançado, foi depois tido como uma bíblia para as artistas que surgiriam. Marisa Monte está entre as que beberam dessa fonte. Dirigido por Caetano Veloso – que, nos tempos pré-tropicalistas, dizia que sua ambição na música era “produzir um repertório pop para a voz de Gal” –, o álbum foi mal de vendas e afastou muito do seu público. “Caetano rompeu radicalmente com o que eu estava fazendo. Ele sabia que era hora de mudar e me ajudou. Quando ouço esse álbum, fico emocionada com a maneira como estou cantando. Parece a voz de um anjo.”

A retomada do público perdido começaria a vir com o álbum seguinte, quando ela dedicou todo um LP para interpretar o repertório de Caymmi. O próprio Dorival participou dos shows de lançamento de Gal Canta Caymmi (1976). Thiago Camelo, parceiro do irmão Marcelo Camelo em Espelho d’Água, canção que batiza um dos shows da cantora, tem especial apreço por esse trabalho: “Ela foi uma das pioneiras a desconstruir canções renomadas. E desconstruir de modo doce e leve. O resultado é incrível. É para poucos, é para Gal.”

Gal “para muitos”, com sucesso maciço, consolidou-se logo a seguir, na virada para a década de 80. Empresariada por Guilherme Araújo, a cantora emplacou uma série de álbuns e hits certeiros e se colocou entre as mais tocadas nas rádios. “Guilherme viu que eu já não era mais a hippie de antes. Ele quis radicalizar isso e, no show Gal Tropical (1979), decidiu que eu usaria salto alto. Logo eu, que me apresentava descalça”, conta. “Lembro que pisei no palco morrendo de medo. Mas uma coisa baixou em mim e eu virei outra pessoa. Fiz tudo com segurança e todo o mundo amou.”
Nos anos 1990 e 2000, Gal reafirmaria sua própria história. Faria outro trabalho com Waly Salomão (Plural, 1990), releria Chico Buarque e Caetano (Mina d’Água do Meu Canto, 1995), regravaria os próprios hits (Acústico MTV, 1997) e os clássicos que ouvia no rádio quando era criança (Todas as Coisas e Eu, 2003) e lançaria disco fora do Brasil (Live at The Blue Note, 2006). Tomava para si o posto de diva da MPB. E parecia estar satisfeita. Até que, em 2011, resolveu começar de novo com Recanto. “Caetano quis romper outra vez com o que eu vinha fazendo, e eu fui. Esse é o meu grande trabalho com ele. Trouxe-me de volta um público jovem, interessado no que eu fazia nos anos 1960. Foi muito bom me jogar de cabeça nele.”

A menina com a panela na cabeça poderia até imaginar que seria cantora um dia. Mas nunca que seria tantas cantoras ao mesmo tempo: discípula da bossa nova e voz da psicodelia, símbolo da contracultura e cantora popular, musa roqueira e da MPB. Na canção Sem Medo Nem Esperança, Antonio Cicero escreveu estas palavras especialmente para serem ditas pela voz de Gal: “Nada do que fiz, por mais feliz, está à altura do que há por fazer”. Há muito trabalho pela frente. E Gal Costa está por aí, sempre forte e atenta.

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