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RIO DE JANEIRO. Como juntar Gilberto Gil, Gal Costa e Nando Reis num só show? Gil e Gal têm uma longa história em comum, de Salvador, Tropicália, Doces Bárbaros e interpretações imortais da cantora para as músicas do amigo. Já com Nando, a conexão pode vir por intermédio de um reggae, digamos – estilo que tanto ele (na época em que era um dos Titãs) quanto o baiano ajudaram a propagar pelo Brasil. “Nos Barracos da Cidade”, sucesso de Gil de 1985 (em parceria com o produtor Liminha) é uma dessas músicas que unem o trio, batizado de Trinca de Ases, no show que estreou semana passada em São Paulo, e que deve chegar a Belo Horizonte em setembro. “Gente estúpida, gente hipócrita!”, promete cantar com eles um público em estado de fervor político.

“Essa música tem esse sentido crítico atemporal. Ela critica esse tipo de insensibilidade ao compromisso com o outro, à equalização dos direitos e dos deveres. No caso do Brasil de agora, ela fica mais evidente”, analisa Gil.

“Trinca de Ases” nasceu no ano passado como uma homenagem ao centenário de Ulysses Guimarães, idealizada pelo jornalista Jorge Bastos Moreno – um show em Brasília, em outubro, só com as vozes do trio e os violões (e canções) de Gil e Nando. O espetáculo intimista de Moreno (que faleceu em junho) foi ganhando uma nova cara e também encorpou. Agora, no palco, não estão mais lá apenas “a moça”, “o rapaz maduro calejado pela idade” e “o menino impetuoso e viril” (como denominou Gil na letra da inédita “Trinca de Ases”), mas também o baixista Magno Brito e o percussionista baiano Kainan do Jêjê (ambos integrantes do Sinara, banda que reúne filho e netos do baiano).

“Eu pedi aos dois (Nando e Gal) que a gente fizesse o show em pé e que acrescentássemos um baixo e uma percussão para realmente chegar a esse mínimo de robustez que ressaltasse os gêneros musicais”, explica Gil.

Ao longo da travessia, canções entraram na barca. Por sugestão do produtor Marcus Preto (que dirigiu Gal no disco/show “Estratosférica” e fez assessoria artística para “Trinca de Ases”), a cantora se apoderou de “Meu Amigo, Meu Heroi”, de Gil, que foi sucesso na voz de Zizi Possi.

“Me comoveu a ideia de cantar para ele essa canção”, justifica-se Gal, que ainda pediu a inclusão de outra de Gil, “Retiros Espirituais”, e de “Lately”, de Stevie Wonder, que Nando começa cantando em inglês e ela segue em português, na versão de Ronaldo Bastos (“Nada Mais”, um hit de Gal nos anos 80).

As escolhas de repertório não foram óbvias. Como o belo momento de Gal em “Dois Rios”, canção de Nando com Samuel Rosa e Lô Borges, muito mais conhecida na versão gravada pelo Skank. Gil surpreendeu também com “Luar (A Gente Precisa Ver o Luar)”, uma música que há tempos ele deixou de contemplar em seus shows.

Com um show em que apenas duas canções (“Lately” e “Baby”, de Caetano Veloso) não têm as mãos de Gil ou de Nando, era inevitável que os dois acabassem compondo algo. “Logo que a gente começou o projeto, a gente chegou à conclusão de que seria bom ter coisas novas. E uma das ideias era a de fazer algo para a Gal”, conta Nando, que fez “A Mãe de Todas as Vozes”. A canção, no entanto, não será ouvida em nenhum dos shows dos trio. “A gente não ficou feliz com o arranjo. Depois eu gravo ela. E tem uma coisa: eu achei que estava cantando demais no show”, conta a cantora, que assim deixou o repertório com três inéditas apenas: “Trinca de Ases”, “Dupla de As” (de Nando) e “Tocarte”, letra de Gil e que recebeu música do ruivo.
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