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  Recanto

Caetano Veloso - 14/12/2011
 
  Quando voltei do exílio londrino, me apresentava usando batom vermelho. Meu cabelo descia até os ombros e era repartido no meio. Um retrato vivo de Gal, pensado como uma homenagem a ela ter encarnado os tropicalistas expatriados durante aqueles anos.

Rimbaud: “Je est un autre” – “eu é um outro”.
Anônimo favelado carioca: “é nós”.

O disco é meu trabalho composicional de agora. Quis fazê-lo com o som da voz dela. Não se tratava de meramente relembrar o passado de Gal, mas de produzir com ela uma peça que fosse forte como expressão atual e, assim, estivesse à altura do nosso histórico. Sonhei com isso por um bom tempo. É que tudo o que conto em “Verdade Tropical” (do reitor Edgard Santos à axé music, passando pela Banda Tropicalista de Rogério Duprat) ficaria sem substância se a voz de Gal não soasse agora em contexto contundente. Finalmente comecei a compor e a imaginar arranjos e sonoridades.

Chamei Moreno, que é afilhado dela e um mago no comando de um estúdio, e ele logo me disse que Kassin era o indicado para tratar os temas que eu ia lhe mostrando. Por isso Kassin tem o maior número de faixas sob sua responsabilidade de programador/arranjador. Mas há toda uma turma de músicos do Rio que fiz questão de convidar para combinar seus sons com a voz de Gal. Desde sempre pensei que o Rabotnik teria que estar numa faixa. E Bartolo, um dos componentes do Duplexx (o outro é Leo Ribeiro), tinha sido, junto com Kassin, um dos primeiros nomes em que Moreno e eu pensamos. Meu outro filho, Zeca, que gosta de música eletrônica e já tem até se apresentado como DJ, estava fazendo, em casa, um remix para uma música francesa. Ao ouvir uma base que ele inventara para substituir a original, percebi que algo como aquilo deveria estar no disco. Zeca riu e disse que poderia partir do que eu ouvira e tentar fazer algo realmente aproveitável. Cobrei depois e ele me veio com a base do que se tornou “Neguinho”. Tanto eu quanto Kassin achávamos satisfatório o que ele tinha feito no Live (um programa de música eletrônica), mas ele queria um som mais rico e pediu a Kassin e a Pedro Sá para adicionarem baixo e guitarra.

Comecei por mostrar a Kassin “Tudo dói”, no violão. E logo “Recanto escuro” e “Cara do mundo”. Kassin, que é uma personalidade fascinante pois parece refratário a sustos mas na verdade é demasiado sensível, ficou surpreendentemente (para mim, que me assusto à toa) animado com os temas. E desde o começo eu vi que não haveria ruído no diálogo. Tudo fluiu muito rápido (o tempo que tomamos foi para fazer tudo com naturalidade, interrompendo para cumprir nossas agendas apertadas e voltando a pôr a mão na massa quando estivéssemos relaxados). Kassin é assim. Parece não se surpreender mas surpreende muito com seu jeito sonso. Tivemos conversas em que demonstrei meu fascínio pelos dribles rítmicos do hip hop. Em “Recanto escuro” ele criou “ilusões auditivas” que têm o mesmo efeito que as levadas equívocas do rap mais inventivo. E ainda citou uma repetição do baixo do meu violão a que eu tinha sido obrigado pela necessidade de passar a página com a letra ao gravar no GarageBand. Depois, encontrando Luís Felipe de Lima no estúdio, extraiu dele essas intervenções de violão de sete cordas que, ao mesmo tempo, rasgam nosso coração e o consolam. Depois pediu a Donatinho e a Pedro Sá que somassem comentários. Moreno e eu editamos o material. A voz de Gal que ficou na versão definitiva dessa faixa é a voz-guia que ela gravou, de cara, apenas para Kassin poder continuar trabalhando.

As gravações provisórias da voz dela foram todas feitas por Moreno em Salvador. Essa de “Recanto escuro” nunca foi refeita. As outras, gravamos depois no estúdio Ilha dos Sapos, no Candeal. Estivemos sempre ali só Moreno, Gal e eu. Nem mesmo um assistente de estúdio para pegar um cabo ou desligar o ar condicionado. Fui para a Bahia e lá dei de cara com esse método de Moreno. Parecia, dentro do Ilha dos Sapos, que nós 3 não tínhamos compromisso com o mundo lá fora. Não sentíamos nem mesmo a responsabilidade profissional como uma coisa real. Foi muito estranho. Muito bom, sem parecer que era bom.

Compus “O menino” em minha casa da Bahia, na presença de meus dois filhos menores. Tom e Zeca riam dos primeiros esboços cantados ao violão, sem letra, pois achavam que parecia tema do videogame Zelda. Na verdade, eu estava pensando no Rabotnik. As palavras da letra surgiram quando pensei no filho de Gal, Gabriel, e em como ele traz alegria a ela. Mas logo a imagem do surgimento de uma criança me trouxe Hanna Arendt dizendo que o maior acontecimento da história da humanidade foi o nascimento de Cristo, Jorge Mautner dizendo “uma criança nasceu entre nós” e “Jesus de Nazaré inaugurou a ideia de direitos humanos”, e, finalmente, a fé cristã dos meus filhos que estavam sentados ali comigo. Não tenho fé religiosa, mas tenho sido levado a pensar muito nesse tema do cristianismo como núcleo da modernidade.

As letras desse disco são ao mesmo tempo muito diretas e um tanto enigmáticas. Não pude evitar. Atribuo ao fato de eu ter pensado nos sons eletrônicos envolvendo a voz de Gal. “Recanto escuro”, que é uma biografia cifrada da própria Gal (mas tem elementos de minha própria biografia), foi composta primeiro sem palavras. Eu queria que estas confirmassem o clima que poderíamos obter com as programações. Mesmo “Sexo e dinheiro”, que tem parentesco com as canções de reflexão de Gil, parece ir desfazendo o raciocínio inicial – mas sempre esbarra em frases cruas, diretas. Todas as letras me surpreenderam à medida que foram se construindo. O crítico Tarik de Souza tinha me perguntado se eu não pensava em fazer algo com música eletrônica. Respondi que não, ressalvando que seria lógico que eu quisesse pois é como pintar Ao imaginar um disco para Gal me vi começando a fazer o que Tárik profetizou em forma de pergunta.

“Miami Maculelê” é uma observação sobre o funk carioca ter começado pelo Miami bass e chegado ao maculelê de Santo Amaro via umbanda. Kassin, Moreno e eu pensamos em unir diretamente o maculelê às produções do DJ Marlboro. De fato, Moreno gravou com o grupo autêntico de Santo Amaro. Mas Marlboro, embora tenha dito que faria as programações, nos deixou na mão (talvez sentindo que isso podia ser uma usurpação, por parte de uma turminha da MPB, da vitalidade do funk do Rio – no que ele não estaria de todo errado). Kassin terminou fazendo toda a programação e, comigo e Moreno, editando-a sobre a base santamarense. (Edu Krieger me falou, faz algum tempo, de um projeto seu de fazer trabalhos harmonicamente complexos sobre ritmo de funk carioca. Eu lhe disse que tinha um lance semelhante para o disco de Gal, embora não se tratasse de harmonias complexas. Ele me mostrou algo do que estava fazendo. Espero que ele torne público seu experimento pelo menos ao mesmo tempo em que exponho o nosso. São coisas diferentes, mas devo registrar a relativa coincidência de intenções). Gosto imensamente da letra (os bandidos santos e a lembrança de Paulinho da Viola dando a volta por cima).

Escrevi “Autotune autoerótico” pensando em usar a ferramenta do título sobre a voz de Gal. Cheguei a fazer isso com Igor. Mas é tão natural todo o trabalho vocal do disco que essa estranha balada soava falsa com a voz de Gal assim trabalhada. Só usamos o efeito nas partes improvisadas sem letra. E deixamos o papel de afinador duro do Autotune exclusivamente para “Miami maculelê”, onde o ambiente do funk acolhe bem a voz entoada artificialmente. No mais, deixamos Gal soar como ela soa. E aqui particularmente sóbria. Basta-lhe o timbre e o relaxamento. Sem intenções interpretativas óbvias e sem demonstrações de capacidade musical. Quanto mais simples, mais simplesmente Gal, maior a integração com os sons às vezes ásperos, às vezes etéreos da eletrônica. A faixa que ia dar nome ao CD, “Segunda”, não tem sons eletrônicos: só um bordão de violão, um cello dobrado e um prato – todos tocados por Moreno. E não soa incoerente com o resto.

As únicas canções não inéditas são “Madre Deus” e “Mansidão”. A primeira foi feita para o bale “Onqotô”, do grupo Corpo, onde ela aparece gravada por Ze Miguel Wisnik. A segunda foi escrita para Jane Duboc, que a gravou já faz anos. Foi tudo um sonho meu. Mas ouvir o que a turma que reuni aprontou para Gal, sobretudo tendo dois dos meus filhos envolvidos, me faz sentir que me aproximei mais do que entendi sobre nosso grupo núcleo, Gil, Bethânia, Gal e eu, desde que começamos à beira da Bahia de Todos os Santos.

Caetano Veloso
Novembro 2011
   
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