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  Os doces monges

Gal Costa - 29/06/2005
 
  Gil disse uma vez que nós quatro, Gil, Bethania, Caetano e eu somos um. Os Doces Bárbaros. As quatro entidades são independentes, mas juntas, formamos uma entidade única. Somos os quatro fortemente espiritualizados. Temos uma estranha comunhão de espírito. Juntos, formamos uma quinta energia.

Com Caetano, principalmente, parece que nos conhecemos há 180 anos. Ou há milênios. Digamos até em vidas passadas, quem sabe?

Num programa de televisão, nos anos 80, Caetano disse que nós tínhamos uma identificação musical: como se dois monges tivessem uma iluminação ao mesmo tempo e não precisassem dizer nada um ao outro para serem entendidos. E essa iluminação, esse ponto de luz, de contato, seria João Gilberto, nossa origem musical.

Meu primeiro disco, Domingo, foi isso: uma comunhão total, nós dois éramos um só, eu me sentia como sendo a voz dele. Creio que ele também sentia isso.

Mergulhei com ele no tropicalismo, fiz Fatal, Índia, shows sempre com forte acentuação desse movimento. Foi quando Caetano e eu resolvemos mudar um pouco a história. Caetano queria que eu mostrasse a minha essência de cantora. E veio o Cantar. Nem o show nem o disco emplacaram. Foi uma mudança muito radical. Neles eu recolhia as minhas feras, as minhas garras, e partia para mostrar um lado mais legitimamente meu.

Com o fracasso do Cantar fiquei retraída, entrei em crise, três anos sem fazer nada.

Foi quando Roberto Menescal me sugeriu cantar Caymmi. Deu certíssimo. Levamos o show a Buenos Ayres. Lá estava Guilherme Araújo que, durante o show, teve a idéia de realizar o Gal Tropical que viria a dar um rumo definitivo na minha carreira. Ao mesmo tempo eu tinha mais uma das minhas premonições: a certeza de que o show iria ficar um ano em cartaz. Ficou um ano e dois meses no Rio.

Caetano estava de férias na Bahia e veio ao Rio especialmente assistir ao show. Chegou aos prantos ao camarim. Aos soluços. Não conseguia falar uma palavra.

Tempos depois me telefona dizendo querer falar comigo. Em casa, os dois sentados na minha cama em posição de lótus, ele me dizia que não havia gostado do show. Que o show era careta, mas que não poderia comentar isso em publico, pois o Tropical era uma unanimidade nacional e não ficava bem para ele ir contra a corrente.

Fiquei arrasada. Apesar de toda a crítica ter posto o show nas alturas, de todos os meus amigos, meus colegas, todos me cobrirem de elogios, Caetano ali na minha frente, justo ele que era a opinião mais importante para mim, dizia não ter gostado.

Só agora, mais de vinte anos depois, entendo as lágrimas dele no camarim. Acho que naquela hora ele percebeu que nascia uma nova Gal, que ele perdia a sua criatura, que eu poderia partir para sempre sendo eu mesma. Como um pai que via a sua filha sair de casa. Livre e independente.

Livres e independentes, mas ainda juntos iluminados. Como dois monges.
   
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