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  Encontros com João

Gal Costa - 29/06/2005
 
  Meu primeiro encontro com João Gilberto foi assim.

Para mim ele era algo inatingível, tamanha a sonoridade que ele fazia com a voz, com o violão. Era de uma modernidade tão ousada, de uma beleza tamanha, que me fazia sentir conectada com o cosmos. Era isso mesmo. Uma coisa que me fazia sentir uma pequenez ínfima, ao mesmo tempo uma grandiosidade tamanha, um universo inteiro dentro de mim. Uma noite estava jantando na casa de Sandra, irmã de Dedé que acabou se casando com Gil, quando apareceu o Silvio Lamenha, o cronista social da Bahia, dizendo que iria encontrar-se com João.

Pulei no pescoço dele e disse “Me leva. Tenho de conhecer o João Gilberto. É o meu ídolo”. Minha mãe, mais liberal que as mães baianas, não me impediu. Naquele tempo, na Bahia de Salvador, menina de 18 anos não podia sair de casa naquelas horas da noite. Lá fui eu mais Silvio ao encontro de João, de bruços no muro de um prédio da Barra Avenida, já nos esperando.

"Essa é Gracinha. Ela canta e gosta muito de você" me apresentava Silvio. João: "Gracinha, já ouvi falar de você. Você tem violão?" Silvio e eu fomos buscar correndo o violão. De novo minha mãe se mostrava de uma sensibilidade maravilhosa. Expliquei a ela o que se passava e percebendo que era a coisa mais importante para mim, me deixou ir pressentindo que seria um encontro de muitas horas.

Na casa de Silvio ele começou a dedilhar o meu violão, o primeiro que tive, que tenho até hoje. Dado por minha mãe. Ouvindo a voz dele e o som do violão, literalmente me senti levitando, sonhando, como se fosse transportada para outro lugar no espaço, no éter. Não parecia ser verdade. Parou de dedilhar por um instante, olhou para mim e disse: "Gracinha: cante Mangueira". Nessa época eu cantava Mangueira me acompanhando ao violão com todas as minhas limitações, mas naquela hora era ele a me acompanhar. "Qual o seu tom?" "É lá." Deu o lá e começou tocar, naquele tom, esperando a minha entrada. Assustada, apavorada, em pânico total, cantei Mangueira. Terminei, ele não disse nada. "Cante outra". Cantei outra, do repertório dele. Ele, nada!E depois outra e mais outra e mais outras. Depois de horas, eu cantando o que ele pedia, parou, olhou para mim e finalmente falou. Disse: "Gracinha você é a maior cantora do Brasil".

Foi como se alguém me desse um carimbo, um certificado, uma revelação que eu precisava para confirmar o que, intuitivamente, estava sentindo. Como se alguém me dissesse: Vai em frente, você é boa. E esse alguém era nada mais nada menos que João Gilberto.

Ficamos horas em companhia um do outro. Depois, João me levou para casa conversou muito com a minha mãe, enfim, foi um sonho que se prolongou quase até a madrugada. Na despedida João me disse: "Venho buscá-la para ir aos Estados Unidos comigo"...

O próximo encontro, porém, só foi acontecer muitos anos depois quando fiz o Fatal em 72. João assistiu ao show todos os dias. Ficava no fundo da platéia, escondido, e saía quando as luzes se acendiam. Depois do show nós nos encontrávamos, íamos cantar, tocar violão, ou passear de carro pelo Rio, ele péssimo volante, sem parar nas esquinas, eu em pânico: "João pare! Vem carro!" E ele sossegado: "Que nada Gracinha. Vem carro nenhum. Conheço pelo som..."
   
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