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  Entrevista: Gal Costa
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Noites romanas
Nelson Motta

 
 
 
     
  Noites romanas

Nelson Motta - 2000
 
  Em Agosto de 83, com o fim abrupto de um romance movido a álcool e cocaína com uma psicanalista carioca, fui para Roma, para o festival Bahia de todos os sambas, produzido pelo cineasta Gianni Amico e bancado pela Secretaria de Cultura romana, do comunista visionário Renato Nicolini, em homenagem a Glauber Rocha. Shows de Dorival Caymmi, João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Nana Caymmi, Moraes Moreira e outros baianos musicais ilustres, cantando e tocando durante uma semana para uma platéia de dez mil pessoas, nas ruínas do Circo Massimo. E mais: um trio elétrico com Amandinho, Dodô e Osmar circularia na Piazza Navona. Os filmes de Glauber seriam exibidos. Estrelas da “Roma Negra” iluminando as noites de verão da Roma Imperial, nada melhor para curar uma rebordosa amorosa. E para sair da canoa furada da cocaína, numa outra cidade num outro tempo, movido a arte e civilização.

Fui para o Hotel Raphael, com seus salões de mármore e suas paredes cobertas de hera, o favorito de Vinicius, onde Chico Buarque também ficou logo que chegou a Roma, na Via Dell’Anima, esquina com o Vícolo Della Pace, atrás da Piazza Navona. Ali, na esquina da alma com a paz, do terraço vêem-se os telhados de Roma e as cúpulas de suas igrejas brilhando o sol, o casario ocre e terracota e as velhas ruas de pedra, desertas sob o calor africano de agosto. A semana Bahia de todos os Sambas tinha começado um dia antes, com a exibição tumultuada do último filme de Glauber, A Idade da Terra, e o show de Caetano Veloso no Circo Massimo com lotação esgotada. À noite vou ao show de Gal Costa.

O Circo Massimo não é o Coliseu, é muito maior (embora muito mais destruído), é o hipódromo onde as bigas corriam para os césares. Ao fundo, as ruínas iluminadas, à frente delas o palco e um grande descampado, ocupado por uma platéia de dez mil pessoas sentadas, que se levantam quando a banda toca a introdução de “Canta Brasil”. E gritam e aplaudem quando ouvem a voz cristalina de Gal e vêem aquela bela figura de mulher, suas formas generosas e maduras mais reveladas do que cobertas por um vestido de Markito de um finíssimo tecido dourado, ora fosco, ora brilhante, que se colava ao seu corpo como uma outra pele até os quadris, de onde descia fluido, revelando coxas e pernas fortes e morenas, que irrompiam pelo rasgo lateral da saia ou se revelavam através das transparências iluminadas. Quando ela canta “Noites Cariocas”, o choro de Jacob do Bandolim, choro copiosamente. Em parte pela rebordosa amorosa, em parte pelo Brasil. E ao mesmo tempo de alegria , infinitamente contente pelo testemunho da arte refinada de Gal, de sua consagração por um público culto e exigente, rara oportunidade de desfrutar um legitimo sentimento de orgulho nacional. Ultimamente, diante do mundo civilizado, sentimos mais vergonha do que orgulho do Brasil, com nossa grotesca ditadura morimbunda e em debandada, nossa eterna crise econômica agravada, nossas injustiças revoltantes, nossa pobreza, ignorância e violência. Provincianamente, imagino que os romanos estão perplexos: como podemos, com nossa miséria cultural e nossa história curta e inglória, produzir uma arte tão rica e desenvolvida, uma arte tão moderna e sofisticada num país tão primitivo e atrasado?

Qualquer crítico de música informado – e há muitos ali – sabe que Gal Costa, como Elis Regina, é uma das melhores cantoras do mundo, que produz uma música tão boa quanto a de Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan. O show termina com uma ovação consagradora e diversas voltas ao palco. Feliz e emocionada, Gal se curva em altiva reverência, a massa de cabelos escuros e ondulados emoldurando uma imensa boca vermelha e sorridente, os bicos dos seios redondos e fartos avançando pelo tecido dourado que o suor lhe cola ao corpo como uma segunda pele. Choro de novo, pensando em Glauber e Hélio Oiticica, amigos queridos e mortos ( os dois aos 42 anos), mestres e inventores de arte e linguagem, reverenciados por estrangeiros e massacrados em sua própria terra, banidos e perseguidos pela insensibilidade e violência da ignorância nacional. Como Gal e Elis na musica, Glauber e Hélio desfrutam o respeito e admiração de qualquer crítico informado de cinema e artes plásticas. Na consagração de Gal, choro a perda, em pouco mais de um ano de Elis, Glauber e Hélio.

in Noites Tropicais: Nelson Motta – Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2000 – p.364-365
   
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