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  Release - Hoje

Carlos Calado - Trama - 02/09/2005
 
  Não se poderia esperar menos de uma cantora de tão alto quilate. Dias antes de comemorar seus 60 anos, neste mês de setembro, Gal Costa lança o inspirado “Hoje”, álbum que tem lugar garantido entre os trabalhos mais brilhantes de sua carreira. A parceria com o pianista César Camargo Mariano, responsável pela direção musical, produção e arranjos, contribuiu para trazer um novo frescor musical à voz e às interpretações da cantora, que estréia com esse álbum na gravadora Trama. Depois de lançar quatro discos com regravações de canções conhecidas, Gal retoma o hábito de gravar novos compositores. “Eu estava devendo esse disco. Há muito tempo vinha prometendo um disco de músicas inéditas, mas não é fácil garimpar repertório”, explica a cantora, que desta vez apresenta ao grande público canções de compositores ainda pouco conhecidos fora do circuito alternativo, como o pernambucano Junio Barreto, os baianos Moisés Santana, Tito Bahiense, Péri e Moreno Veloso ou os paulistas Hilton Raw e Nuno Ramos, entre outros. “São compositores que já estão aí há um bom tempo e até fizeram discos independentes, mas ainda não tiveram oportunidade de exibir seus trabalhos a um público maior. Eu me sinto gratificada por poder mostrar os trabalhos dessa rapaziada tão talentosa”, elogia a cantora, que contou com a ajuda do letrista Carlos Rennó e do pianista Otávio de Moraes na garimpagem de canções inéditas ou pouco conhecidas. O repertório do disco foi selecionado entre mais de 200 composições. Gal já tinha gravado anteriormente com Cesar Camargo Mariano seu álbum “Baby Gal”, lançado em 1983. “Desta vez tivemos uma identidade muito maior”, ela avalia. “César também me ajudou a escolher o repertório, mas só entraram canções com as quais eu me identifico. Por isso o disco ficou com a minha cara. Acho que esse repertório trouxe algo diferente até para o próprio trabalho do Cesar”. O reencontro com o pianista, segundo a cantora, aconteceu em 2003, quando ambos participaram de uma homenagem a Tom Jobim, no Carnegie Hall, em Nova York. Nos bastidores, depois de apresentarem uma canção de Chet Baker, Cesar sugeriu a ela que fizessem juntos um disco centrado na obra desse jazzista norte-americano. Meses depois, ao ser contratada pela Trama, Gal fez questão de incluir o projeto na negociação. “Fizemos um contrato para dois discos: este de inéditas e o de Chet Baker. A gente pretendia fazer os dois discos simultaneamente, mas o tempo não foi suficiente”. Criando no estúdio Revelando detalhes de bastidores da criação do álbum, Cesar conta que iniciou a pré-produção um ano antes, inclusive escrevendo arranjos e fazendo demos de várias canções. “Quanto à forma de gravar, sugeri à Gal que o fizesse junto com os músicos”, explica o produtor, observando que essa opção contribuiu para criar uma atmosfera de maior cumplicidade no estúdio. “O que tornou esse trabalho muito excitante foi o fato de termos usado um script, um enredo inicial, mas partes da atuação, da iluminação, do cenário e dos movimentos de câmera terem sido criadas no estúdio”, compara o pianista e arranjador, lembrando que não fazia um disco desse modo mais espontâneo desde os tempos de sua parceria com Elis Regina. Diariamente, antes que Gal chegasse para gravar, Cesar preparava o arranjo de uma das canções e trabalhava esse arranjo com os músicos por cerca de três horas. “Escolhi estes músicos em função do som que eu tinha na cabeça. São músicos jovens, com ‘sangue novo’, muito talentosos e com estilos próprios e criativos”. Cesar diz que ainda se emociona ao pensar na surpreendente intimidade musical que sentiu ao tocar com Marcus Teixeira (guitarra acústica), Robinho (baixo elétrico), Edu Martins (baixo acústico), Daniel de Paula (bateria) e Márcio Forte (percussão). “Exceto eu e Gal, a faixa etária no estúdio era de vinte e poucos anos, mas parecia que a gente se conhecia há décadas. Essa integração musical a gente não encontra mais nos estúdios de gravação. Isso fez com que a Gal se sentisse muito confortável durante todo o trabalho”, observa o produtor, que vive nos Estados Unidos desde os anos 90. Melodias africanas O acaso também influiu nas gravações. O cantor e multiinstrumentista Silvera acabou participando de quatro faixas, porque estava nos estúdios da Trama no exato dia em que Cesar decidiu experimentar alguns vocais de apoio. A idéia foi inspirada pelas singelas melodias africanas do congolês Lokua Kanza, autor de três canções escolhidas por Gal, todas letradas por Carlos Rennó. Os vocais de Silvera colorem duas canções de amor: “Mar e Sol” e “Te Adorar”. Já a queixosa “Sexo e Luz” inclui discretos vocais do próprio compositor africano, que participa da gravação. “Quando Rennó me mostrou as canções que tinha feito com Lokua, imediatamente me apaixonei”, reconhece a cantora. Vocalismos e temperos rítmicos africanos também dão sabor especial a outras duas canções. Já gravada pelo próprio autor Junio Barreto, a solene “Santana” (parceria com João Carlos) cresceu muito no criativo arranjo de Cesar, que permite a Gal explorar sua região vocal mais aguda. Já a romântica Voyeur” (de Péri), com uma dançante levada caribenha, ganha um sotaque afro graças aos “backing vocals” de Silvera. Beleza e melancolia conversam em “Pra Que Cantar”, samba-canção do compositor e artista plástico Nuno Ramos. O arranjo, que leva a característica assinatura rítmica de Cesar, à frente de um quinteto eletroacústico, é uma pequena jóia minimalista. A mesma formação instrumental retorna em “Jurei”, um samba mais rasgado, que Nuno Ramos compôs com seu parceiro Clima. “Eu poderia gravar várias outras composições dos dois. Eles fazem um trabalho inspirado em Nelson Cavaquinho, de quem são fãs, assim como eu”, comenta Gal, em tom de elogio. Momento pop Baianos radicados em São Paulo, Moisés Santana e Tito Bahiense também se destacam no elenco de compositores eleitos por Gal. Na bem tramada “Os Dois”, Santana entrelaça versos emprestados de clássicos da bossa nova de Tom Jobim, Vinícius de Moraes e Newton Mendonça (procedimento, aliás, que Caetano Veloso já utilizara na tropicalista “Saudosismo”). Com uma letra quase non-sense, que chega a lembrar Jorge Ben Jor, a divertida “Logus Pé” (de Bahiense) é o momento mais pop do disco. “O meu automóvel é / Meu pé, meu pé”, diz o hilário refrão. Pilotando um órgão, Cesar e o quinteto misturam batidas de samba com “grooves” de acid jazz. Mesmo reservando a maior parte do repertório de “Hoje” a compositores menos conhecidos, Gal não abriu mão de contar com canções inéditas de Chico Buarque e Caetano Veloso, autores presentes na maioria de seus discos. Encomendada a Chico Buarque ainda para o show do álbum “Todas as Coisas e Eu” (2004), “Embebedado” delineia de forma vertiginosa, na letra de Zé Miguel Wisnik, um desesperado ato de amor. A melancolia de “Luto”, sensível canção de Caetano que Gal recebeu já durante a fase de produção do disco, chegou a levar a cantora às lagrimas, ao gravá-la. “As músicas de Caetano sempre me emocionam”, ela reconhece. Outro momento emotivo do álbum está na canção “Nada a Ver”, composição de Hilton Raw, em parceria com a artista plástica Lenora de Barros e o jornalista Marcos Augusto Gonçalves. Acompanhada apenas por piano e baixo acústico, a voz de Gal brilha com toda intensidade. Com a sabedoria dos 60 anos, a cantora também esboça um balanço sentimental na serena interpretação de “Hoje”, canção de Moreno Veloso que dá título ao disco: “Eu posso esquecer / Para ser mais feliz / Mas não vou mudar nada / De tudo que eu fiz”. O sofisticado arranjo de Cesar atinge um tom dramático, sem perder a contenção. Moreno também é autor de “Um Passo à Frente” (parceria com Quito Ribeiro), sacudido samba de sabor baiano que fecha o álbum. “Este encontro aconteceu no momento certo. Foi um trabalho harmonioso, de comunhão”, diz Gal, avaliando a nova parceria com Cesar Camargo Mariano. “Estou muito feliz por completar 60 anos com um disco como este, em plena forma e interpretando compositores jovens”, completa. Em meio aos modismos descartáveis que dominam a cena musical, Gal e Cesar provam nesse primoroso trabalho, que a música feita com sensibilidade, emoção e maturidade sempre terá seu espaço. Tanto hoje como na eternidade.
   
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