De Gal - Sobre Gal - Entrevistas
 
 
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  Gal esbanja vivacidade e frescor magnéticos
Manoel Beato - O Estado de São Paulo - 13/09/2007
 
  Se fosse um vinho, sua voz seria um Bourgogne, leve, intenso, bem definido O acaso traz, às vezes, deliciosas surpresas para quem vive na 'selva' São Paulo, tornando-a mais branda, dócil e humana. Em momentos maçantes ou difíceis pode haver a volta de vozes que nos confortam. Em alguns casos, nos enlevam. Foi assim na semana passada, quando a cidade nos brindou com o que há de mais belo e original no canto da Música Popular Brasileira... De uma só vez: Monica Salmaso e Gal Costa! 'Não me escaparão', pensei, como de fato não deixei que o fizessem. Seriam necessários muitos textos mais para celebrar, comentar e fazer jus ao que Monica fez com o cancioneiro de Chico Buarque nesta recente leitura, em luxuosa parceria com o grupo Pau Brasil. Porém, confesso que (talvez pela extrema raridade que a estrada histórica já percorrida lhe confere), o que mais me intrigava e instigava era a possibilidade de ouvir Gal acompanhada apenas por um violão, no Baretto. Para quem não o conhece, é um pequeno bar de hotel, ou antes um night club, onde mesas, pessoas e palco, muito próximos, dão a impressão de um sarau, daqueles em que se desfrutava a presença do artista na mesma escala física de intimidade que havia entre os convivas. Nem bem começou a cantar, me dei conta do que estava por vir. Diante de mim, a que considero a mais primorosa e expressiva cantora brasileira. Com presença discreta no 'palco' (no caso, apenas uma área indicada por luz, no chão, junto às cadeiras) e dom único de envolver e proporcionar experiências quase 'extracorpóreas', Gal me fez mergulhar proustianamente do magistral e encantador presente/passado de nossa música. Seja em 'clássicos' como Coisa Mais Linda (Carlos Lyra/ Vinícius de Moraes ) e Meu Bem, Meu Mal (Caetano Veloso), ou novos sucessos como Ruas de Outono (Ana Carolina/ Antônio Villeroy) e Mulher Eu Sei (Chico César), ela arrasta consigo o público com maliciosa gentileza, quer seja pelo humor e simpatia (como ao pedir que cantassem o refrão dessa última: 'Eu sei como pisar no coração de uma mulher/ já fui mulher, eu sei'), ou pelo mais pungente lirismo, como em Vapor Barato (Jards Macalé), com o violão de Luiz Meira à andaluza. Em Aquarela do Brasil (Ary Barroso), aliás, voz e violão tornaram-se percussão, cheios de citações e paródias bem-humoradas. Na esfera de intimismo da bossa nova, estava ali presente o 'rubato' lírico/preciso de 'mestre' João Gilberto, sempre remanejando as durações de notas e compassos. A diferença é que Gal é íntima quando quer, tendo a escolher todo o gradiente possível de emissão, da mais intensa - com o microfone junto ao umbigo, quase a capela - ao cochicho mais transparente e saboroso. Sou, sim, culpado de gula musical, pois ainda gostaria de ouvir, ao vivo, aquele Nada Além (Custódio Mesquita/ Mario Lago), que ela interpretou recentemente em variante blues-jazz, no Blue Note de Nova York. Ou Trem das Onze (Adoniram Barbosa), acompanhando a si mesma ao violão, com batida de bossa e improvisos de tirar o fôlego, como nunca mais fez (em contracanto, sobre o público que canta o tema), audível em antigas gravações ao vivo. Queria o que ela fez e faz de 'moderno', palavra que durante o show ela menciona e define, sempre sob a égide de João Gilberto, o maior inspirador. Desejava e desejo, em suma, o lado maior da minha maior das cantoras, a Gal original ! Curiosa e oportuna, aliás, também esta palavrinha: Original... Ela se refere tanto ao que (de relevante) acaba de acontecer, quanto ao que está na origem; o que funda e o que renova. É isso! Foi o grande pianista canadense Glenn Gould quem o disse, e o fez várias vezes em sua carreira: 'Originalidade é colocar sutilmente premissas ligeiramente diferentes daquelas que esperam de você.' Voltando às canções que a gala de Gal galanteou sem igual, penso na Gabriela que Tom Jobim criou pensando nela, em essência e aparência. Ou em Antonico (Ismael Silva), então resgatada de um quase esquecimento, em inédita chave de delicada comoção e reverência; Sua Estupidez (Roberto e Erasmo Carlos) acrescida de sentido, em plena batalha tropicalista, na qual militou, muitas vezes sob a batuta do genial 'comandante' Rogério Duprat, arranjador e maestro. Ainda em meu tapete mágico remanescente, evoco meu alumbramento à primeira audição de Domingo, seu primeiro e um dos melhores discos, cantado com doçura inovadora no universo feminino das vozes da MPB. Tais digressões, leitor, queira encarar como sugestões objetivas de audição, 'utilidade pública', até...! É que é impossível ouvir Gal sem reabrir a cara ferida de sua voz em nossa vida pregressa. Embora a leveza cristalina do timbre brilhante e a técnica de antes não mais se façam sentir com igual pungência, por 'amadurecimento' da voz, ou até talvez por certa 'preguiça' em ter sempre de igualar-se a si mesma, quem sabe... Sua destreza dinâmica e rítmica, nos andamentos lépidos ou lentos, bem como seu equilíbrio entre intuição e profissionalismo a faz desigual (10, é Gal !), 'moderna', que seja, como ela quer...! Não é por acaso que tanto se apoiou em Caetano, seu mais freqüente compositor, arautos um do outro; o mais 'moderno' e fundador entre os melhores poetas da canção brasileira. Se fosse vinho, sua voz seria um Bourgogne, que disfarça sua força em delicadeza, sua delicadeza em força. Leve, intenso, bem estruturado e definido. Profundo, não pesado. Com tenacidade e amplitude, Gal esbanja vivacidade e frescor magnéticos. Inebriado pela flutuação das moléculas de odores melódicos e saborosas ondas de som, 'saí' do show sem sair, no vento do tempo, percebendo como a qualidade é atemporal; convicto de que o autêntico 'moderno' será sempre eterno. Manoel Beato é sommelier da Enoteca Fasano
   
 
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